Depois de 53 anos de ausência, o Sunderland está de volta ao palco europeu – e Luke O’Nien fará parte da comitiva. Aos 31 anos, o defesa caminha para se tornar o jogador com mais partidas oficiais pelos Black Cats, apesar de persistirem dúvidas sobre a sua capacidade para se afirmar de forma consistente na Premier League.
“Quando chegas a um clube, nunca sabes como vão correr as coisas ou quanto tempo vais ficar”, disse O’Nien à BBC Radio Newcastle. “Hoje em dia é raro um jogador permanecer tanto tempo no mesmo sítio.” Em 2024/25 cumprirá a nona época no Stadium of Light, num conto moderno que culminou com o apuramento europeu: o Sunderland saltou sobre vários rivais e agarrou o sétimo lugar na derradeira jornada, vencendo o Chelsea por 2-1 em casa.
Chegado em 2018 ainda com o clube na League One (terceiro escalão), O’Nien demorou a impor-se no topo. Em 2023/24, foi titular em apenas 12 jogos do campeonato sob as ordens de Regis Le Bris e só no início de março realizou os seus primeiros 90 minutos completos na Premier League como capitão. Beneficiou então das lesões de concorrentes diretos e somou mais cinco titularidades até ao fecho da época. A estreia a titular chegou num duelo de março com o Leeds, no qual foi eleito Homem do Jogo – não só pelo rendimento, mas por encarnar o “Mr. Sunderland”, rótulo que adeptos e clube lhe atribuíram.
Os críticos apontam limitações – falta de velocidade, antecipação e tomada de decisão – sobretudo quando atua como central pelo lado direito num trio. Tornou-se por isso alvo fácil nas redes sociais. Ainda assim, o seu peso no balneário é inegável. Único sobrevivente do plantel retratado no documentário “Sunderland ’Til I Die” (2018), O’Nien é hoje a “cola” entre equipa e adeptos, um líder emocional cuja entrega total mexe com as bancadas.

O percurso ajuda a explicar a aura. Há 12 anos, O’Nien jogava no sétimo escalão. Formado no Watford, foi dispensado após o clube informar o seu pai de que não teria contrato. Seguiu-se uma maratona de emails para dezenas de emblemas – com apenas uma resposta. Acabou no Wealdstone, então na sétima divisão, e em 2015 ainda competia no sexto escalão. O salto surgiu com a ida para o Wycombe Wanderers, dois patamares acima, etapa à qual diz ficar “eternamente grato”. Três anos e 119 jogos depois, assinou pelo Sunderland, recém-despromovido ao terceiro nível.
Viveu de tudo no Nordeste: a derrota no play-off com o Charlton na sua época de estreia, o oitavo lugar (o pior de sempre do clube) no ano seguinte, e a viragem em 2022, com subida ao Championship através de um triunfo no play-off frente ao seu antigo clube, o Wycombe. Seguiu-se a consolidação e, doze meses atrás, o tão aguardado regresso à Premier League. Enquanto o clube investiu forte para se preparar para a elite, O’Nien renovou até 2027, com opção por mais uma época.
Hoje soma 329 jogos oficiais pelo Sunderland, com apenas dois nomes – ambos falecidos antes do virar do milénio – acima dele no ranking histórico. Faltam 23 partidas para assumir o topo, objetivo que persegue com a mesma determinação com que sonha, agora, com a estreia internacional sénior – cenário que muitos consideram cada vez mais provável.
“Já tive jogos bons, maus e tudo o que há pelo meio. Melhorei desde o primeiro dia”, admite. “Se quero chegar aos 350 ou mais, tenho de continuar a evoluir para não ser o mesmo jogador que sou agora.” E é com essa ética de trabalho que o ‘Sr. Sunderland’ se prepara para um regresso às noites europeias que parecia impossível quando dava os primeiros passos no futebol não-liga.
